Estamos todos navegando
Sim, eu gosto de música velha. Entrego a minha idade (50 anos) com alegria e sem problema algum quando faço citações musicais. Aliás, acho difícil usar exemplos de músicas quando faço mensagens para jovens (sou pastor luterano), pois parecem não se importar mais com as letras. Se eu tivesse que ouvir as coisas que os artistas produzem hoje, acho que eu também preferiria nem saber. Mas, quando eu era jovem, a letra era justamente o que fazia a beleza das músicas. A sábia conjunção entre a partitura e a poesia sempre me enchia de admiração. Por exemplo: é difícil deixar de admirar a genialidade de um autor que compõe uma música e se dá ao trabalho de colocar a nota mais alta na palavra "céu" e a mais baixa na palavra "chão"; que compõe todas as frases de uma estrofe terminando com palavras proparoxítonas e, depois, as embaralha para dar novo e verdadeiro sentido para a música. Estou falando das músicas "Beatriz" e "Construção", de Chico Buarque de Holanda. Sim, é aquele autor que todo mundo detona nas redes sociais por conta de sua posição política alinhada à esquerda. Para mim, tanto faz o que ele pensa como político (não gosto nem um pouco), mas é impossível - e seria desonesto - deixar de admirar suas composições por conta disso. Separar a obra do autor, sabe? É preciso ter um pouco mais de idade para conseguir fazer isso. Não tenho paciência com as simplificações que tomaram conta do nosso chato Brasil de hoje.
Bem, eu estava falando de música velha.
Dias desses, durante uma folga, estava revendo os clássicos que fizeram parte da minha juventude. Encontrei algumas músicas do Rod Stewart. Sempre gostei do timbre áspero de sua voz e de suas entonações melódicas sensíveis, tocantes. Ele não é um cantor muito popular hoje. Está velho, cansado e aposentado, ao que tudo indica. Ou deparou-se com o a triste verdade de que não consegue mais competir com os ritmos consumidos atualmente. Tadinho dele se ouvisse uma rádio brasileira, cheia de funks e sertanejos, a verdadeira antítese da poesia. (Antes que um chato me condene, tem sim, sertanejos bonitos e poéticos. Refiro-me às odes ao álcool e sexo; àqueles sertanejos que nunca saem da faculdade, entende?)
Sempre pensei que falasse de um homem que está distante de seu grande amor - uma mulher, já que o Rod Stewart sempre foi um notório admirador do sexo feminino - e, morto de saudades, não vê a hora de cruzar os mares e os céus para estar com ela.
Entretanto, prestando mais atenção à letra, percebi o quanto estava enganado. Veja aí:
Sailing
I am sailing, I am sailing
Home again across the sea.
I am sailing, stormy waters
To be near you, to be free
I am flying, I am flying,
Like a bird across the sky
I am flying, passing high clouds
To be near you, to be free
Can you hear me? Can you hear me?
Through the dark night, far away
I am dying, forever crying
To be with you, who can say?
Can you hear me? Can you hear me?
Through the dark night, far away.
I am dying, forever crying,
To be near you, who can say?
We are sailing, we are sailing,
Home again across the sea.
We are sailing stormy waters,
To be near you, to be free.
Oh Lord, to be near you, to be free.
Oh Lord, to be near you, to be free,
Oh Lord.
Eu podia traduzir a música para o caso de alguém estar lendo o que escrevo, mas estou com uma preguiça... Coloca lá no Google Tradutor que deve dar quase certo.
Eu comecei a reparar que o autor não estava falando de uma mulher. Ele está falando de navegar pela vida, esta que é repleta de turbulências; de cruzar os céus como um pássaro, exposto ao perigo, arriscando-se às altas nuvens, para voltar para casa.
Essa viagem pela vida, em riscos e dores, alegrias e sofrimentos, pecados e perdões, essa saga toda, tem um objetivo: é para poder estar junto novamente a Deus, o Criador, de quem estamos distantes em nosso desterro.
Nessa escuridão de um mundo caído, dessa noite de trevas profundas que caíram sobre a humanidade, ele lança seu clamor: Você pode me ouvir (Deus)? Mesmo de tão longe? Eu estou morrendo, chorando infinitamente, suplicando para estar contigo. É o grito de saudade, proferido por Adão.
Então conclui Sir Stewart : Sim, nós todos estamos navegando... de volta para casa, para estar contigo, ó Senhor. E para sermos - finalmente - livres.
Se você não entendeu todas as referências, provavelmente não tem o background cristão necessário. Somos um país de tradição cristã tão enraizada quanto desconhecida. A Bíblia nos diz que sim, estamos longe de Deus, distantes da nossa casa, o Paraíso Perdido, onde não havia morte e onde a comunhão íntima com Deus era natural. Alguém de que não lembro agora (perdoe-me, autor; corrijo-me adiante, se lembrar) descreveu essa união como:
"...ter Deus para um café no quintal, todo dia".
O apóstolo Paulo descreveu de outra forma:
"... veremos face a face. Agora meu conhecimento é incompleto; depois conhecerei como também sou conhecido" 1 Coríntios 13.12 (NAA).
Será que as gerações que cantaram essa música de forma descuidada (como eu fiz) perceberam a profundidade por trás da letra? Que a liberdade que tanto procuramos nesse mundo só será encontrada quando, finalmente, estivermos novamente no abraço do Criador? Que viver é estar a cada dia mais próximo dele, ainda que por enquanto soframos e gemamos?
Um outro escritor já tinha falado a respeito do mesmo assunto. Leia o que ele disse:
"Então ouvi uma voz forte que vinha do trono e dizia: - Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles e será o Deus deles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima. E já não existirá mais morte, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram". Apocalipse 21.3-4.
Até lá.
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